Viajava de comboio e olhei pela janela quando passava junto à praia. O sol punha-se, como se põe todos os dias, formulando o clichê das stories do Instagram, do fotógrafo amador. Pensei em sacar do telemóvel e tirar uma fotografia. Não o fiz. Amanhã há outro pôr-do-sol.
A inevitabilidade do desaparecimento é o que potencia a fotografia. Vem-me isso à cabeça quando penso no meu próprio trabalho e no que me provoca o fascínio e a vontade de fotografar. Há uma urgência em fixar essa imagem que vejo numa fotografia, porque eu sei que ela vai deixar de existir. E eu desejo que ela exista para sempre.
A fotografia é e sempre foi um fixador do presente para o futuro; existe numa relação temporal linear, se antes até no nível técnico (pois havia um compasso de espera entre fotografar em rolo e ver a fotografia impressa), agora, com o digital, sobretudo ontológico. A fotografia pressupõe uma cadência de acções cada vez mais abstractas: ver o objecto, fotografar o objecto, ver a fotografia do objecto. Se geralmente o primeiro e o segundo acontecem apenas uma vez, o terceiro é repetido, pelo menos, sempre que surge o pensamento do objecto. Ou seja, o objecto deixa de existir, para passar a ser referenciado, nomeado e lembrado apenas pela sua representação. Nesta relação linear temporal, torna-se evidente que nunca é possível fotografar o futuro nem ver uma fotografia do presente.
A fotografia serve assim como prova de morte. Tudo o que foi fotografado não existe mais. Tudo o que será fotografado deixará de existir. A fotografia é uma fixação objectiva da realidade, de uma maneira que a pintura e a escultura não podem ser, muito menos a literatura ou a poesia. A fotografia apodera-se da realidade, dos objectos e das pessoas que captura, e substitui-as. Restando a imagem, a realidade já não é necessária.
Nesse desejo da imortalidade que a fotografia (quase) alcança, esbarramos na insuficiência dos corpos. Apesar de materiais, palpáveis, a sua fisicalidade não chega, porque acabam. Já a fotografia, apesar de imortal, não confere materialidade subjectiva. Todas as fotografias têm o mesmo toque, a mesma superfície. É também pelo toque, pelo cheiro, que nos relacionamos com os objectos. Na fotografia, é só o olhar. Mesmo quando passo o dedo na fotografia do rosto de alguém amado, só toco papel, ou um ecrã, a pele desse rosto apenas uma memória putrefacta.
A imortalidade é atingida assim pela referência. Não somos nós que nos tornamos imortais, mas nós através de um plano. Não se experiencia a própria imortalidade, porque o que fica é a ideia ou uma construção de nós. Seja pela fotografia, pela obra ou só pela memória dos vivos, a imortalidade constata-se em representações, porque aquilo que representa desapareceu irreversivelmente. Todo o desaparecimento deixa rasto. É impossível viver como se o momento imediatamente anterior não tivesse acontecido.
Quanto mais penso na separação crescente entre a mortalidade e a imortalidade, entre a experiência da vida e a (não-)experiência da morte, mais me pareço também separar do concreto, referindo-me a abstracções do pensamento que poderão não ter qualquer utilidade práctica. Saindo fora da espuma dos dias, tudo me parece banal e banalizante. Mais que isso, tudo me parece irredutivelmente e irritantemente temporário, fugaz, demasiado rápido para poder ser levado a sério. As coisas agora parecem apenas desaparecer constantemente, impossibilitadas de atingir qualquer tipo de imortalidade, qualquer tipo de memória. Estamos afundados num ciclo de morte, de finitude e desaparecimento. Nada tem tempo nem espaço para se formar devidamente, antes de voltar-se ao esquecimento.
A pergunta que faço é: se todo o desaparecimento deixa rasto, mas não temos memória concreta do que desapareceu, que rasto é esse? Que vida estamos a viver nestes tempos em que os momentos imediatamente anteriores parecem não ter acontecido?
Hoje voltou a haver pôr-do-sol. Não o fotografei.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: circle 35 — foam and sand
Alarido: do desaparecimento

s/título (2020) — Miguel De
Viajava de comboio e olhei pela janela quando passava junto à praia. O sol punha-se, como se põe todos os dias, formulando o clichê das stories do Instagram, do fotógrafo amador. Pensei em sacar do telemóvel e tirar uma fotografia. Não o fiz. Amanhã há outro pôr-do-sol.
A inevitabilidade do desaparecimento é o que potencia a fotografia. Vem-me isso à cabeça quando penso no meu próprio trabalho e no que me provoca o fascínio e a vontade de fotografar. Há uma urgência em fixar essa imagem que vejo numa fotografia, porque eu sei que ela vai deixar de existir. E eu desejo que ela exista para sempre.
A fotografia é e sempre foi um fixador do presente para o futuro; existe numa relação temporal linear, se antes até no nível técnico (pois havia um compasso de espera entre fotografar em rolo e ver a fotografia impressa), agora, com o digital, sobretudo ontológico. A fotografia pressupõe uma cadência de acções cada vez mais abstractas: ver o objecto, fotografar o objecto, ver a fotografia do objecto. Se geralmente o primeiro e o segundo acontecem apenas uma vez, o terceiro é repetido, pelo menos, sempre que surge o pensamento do objecto. Ou seja, o objecto deixa de existir, para passar a ser referenciado, nomeado e lembrado apenas pela sua representação. Nesta relação linear temporal, torna-se evidente que nunca é possível fotografar o futuro nem ver uma fotografia do presente.
A fotografia serve assim como prova de morte. Tudo o que foi fotografado não existe mais. Tudo o que será fotografado deixará de existir. A fotografia é uma fixação objectiva da realidade, de uma maneira que a pintura e a escultura não podem ser, muito menos a literatura ou a poesia. A fotografia apodera-se da realidade, dos objectos e das pessoas que captura, e substitui-as. Restando a imagem, a realidade já não é necessária.
Nesse desejo da imortalidade que a fotografia (quase) alcança, esbarramos na insuficiência dos corpos. Apesar de materiais, palpáveis, a sua fisicalidade não chega, porque acabam. Já a fotografia, apesar de imortal, não confere materialidade subjectiva. Todas as fotografias têm o mesmo toque, a mesma superfície. É também pelo toque, pelo cheiro, que nos relacionamos com os objectos. Na fotografia, é só o olhar. Mesmo quando passo o dedo na fotografia do rosto de alguém amado, só toco papel, ou um ecrã, a pele desse rosto apenas uma memória putrefacta.
A imortalidade é atingida assim pela referência. Não somos nós que nos tornamos imortais, mas nós através de um plano. Não se experiencia a própria imortalidade, porque o que fica é a ideia ou uma construção de nós. Seja pela fotografia, pela obra ou só pela memória dos vivos, a imortalidade constata-se em representações, porque aquilo que representa desapareceu irreversivelmente. Todo o desaparecimento deixa rasto. É impossível viver como se o momento imediatamente anterior não tivesse acontecido.
Quanto mais penso na separação crescente entre a mortalidade e a imortalidade, entre a experiência da vida e a (não-)experiência da morte, mais me pareço também separar do concreto, referindo-me a abstracções do pensamento que poderão não ter qualquer utilidade práctica. Saindo fora da espuma dos dias, tudo me parece banal e banalizante. Mais que isso, tudo me parece irredutivelmente e irritantemente temporário, fugaz, demasiado rápido para poder ser levado a sério. As coisas agora parecem apenas desaparecer constantemente, impossibilitadas de atingir qualquer tipo de imortalidade, qualquer tipo de memória. Estamos afundados num ciclo de morte, de finitude e desaparecimento. Nada tem tempo nem espaço para se formar devidamente, antes de voltar-se ao esquecimento.
A pergunta que faço é: se todo o desaparecimento deixa rasto, mas não temos memória concreta do que desapareceu, que rasto é esse? Que vida estamos a viver nestes tempos em que os momentos imediatamente anteriores parecem não ter acontecido?
Hoje voltou a haver pôr-do-sol. Não o fotografei.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: circle 35 — foam and sand