Estou sentado num chão desnivelado e desconfortável, descansando os ouvidos dos tremores apressados da música que ecoa dentro da sala negra, a conversar com o Pedro e a Francisca, calmamente, quando o cimento se ilumina. Olho para o céu e por cima de mim, por cima de nós, um intenso clarão em movimento, rápido, imenso, deixando um rasto dourado brilhante persistente na escuridão durante alguns segundos. Um tempo infinitamente minúsculo, um silêncio absoluto.
Uma rapariga pousa o telemóvel no espelho de um degrau, junto à rua onde mora, com a câmara frontal apontada para si. Começa um directo no seu instagram. Está com amigos, conversam animadamente, quando o céu se ilumina. Olha para lá, boquiaberta, e por cima dela, por cima deles, um intenso clarão em movimento, rápido, imenso, deixando um rasto dourado brilhante persistente na escuridão durante alguns segundos. Um tempo infinitamente minúsculo, um silêncio absoluto.
Um rapaz caminha a passos largos por uma rua em mau estado, rodeada de eucaliptos. À sua frente seguem dois amigos. Conversam nas pausas de cada passo, parecem ter pressa. De repente, as árvores parecem reluzir. Olha para de onde a luz vem e, por cima dele, por cima deles, um intenso clarão em movimento, rápido, imenso, deixando um rasto dourado brilhante persistente na escuridão durante alguns segundos. Um tempo infinitamente minúsculo, um silêncio absoluto.
De todos estes sítios, a largos quilómetros entre si, foi possível ver o meteoro. Foi possível ver o clarão que chamou todos os olhos ao céu, e a rocha incandescente a rasgar a escuridão. Foi possível ver a linha que deixou atrás de si, as poeiras que largou arderem até ao desvanecimento, num dourado impossível, irrealista, inacreditável. Foi possível deduzir mil e uma explicações naqueles parcos segundos, porque estrelas cadentes quase todos já vimos, mas daquele tamanho? Foi visto em Portugal e em Espanha. De todos estes sítios, uma camada de planeta impossível de ver do nosso ponto de vista normal, foi possível ver o meteoro.
Do ponto de vista do meteoro, imaginando, num espaço bidimensional, que o seu brilho ilumina apenas para baixo, embatendo na superfície da Terra, o trajecto da luz projecta um círculo e, portanto, forma um cone. Todas as pessoas dentro desse cone conseguem ver o meteoro. Na superfície terrestre dentro desse amplo diâmetro da luz projectada, acontece um evento individual partilhado. As pessoas não se conseguem ver umas às outras, mas olham todas para o mesmo, ao mesmo tempo.
Não me parece existirem eventos partilhados deste tipo que tenham origem na superfície do nosso planeta, devido à necessidade de elevação extrema, estratosférica ou para lá disso. Da mesma forma, não sei até que ponto possamos até agora ter testemunhado (ou até que viremos a testemunhar) um evento individual partilhado que seja de origem humana, porque ele requer que pessoas em diferentes locais olhem para o mesmo sítio ao mesmo tempo. Talvez o mais próximo disso terá sido a aterragem na Lua, embora a necessidade da interface electrónica (a câmara, os cabos, as antenas, a televisão) para efectivamente ver o que quer que seja, cause interferência na experiência ou barreiras na comunicação ininterrupta entre o evento e o ente. A televisão, ou o ecrã, ou o digital, no fundo, são interfaces de interrupção, de quebra e aplainamento da experiência orgânica. Ver o meteorito ou ver um vídeo em directo do meteorito não são a mesma coisa.
É um evento individual porque, subitamente, no inesperado da situação, todo o universo se reduz violentamente a uma linha recta entre o indivíduo e o objecto da sua atenção plena. Naqueles segundos, o mundo desliga-se, tornado inexistente perante a descarga de energia concentrada no evento. É instintivo e animal: perante o seu fim do mundo, imagino que os dinossauros também tenham olhado para o céu.
Tal como o fechamento do mundo acontece para lá da nossa consciência, também a partilha do evento se trata de uma ampliação energética que nos ultrapassa. Ou seja, e não sendo esotérico, o evento é partilhado porque é absolutamente igual, em todas as suas características, a todos os que o experienciam. A comunicação de indivíduo para indivíduo dá-se através do meteoro, que passa a ser como um satélite de telecomunicações, recebendo e transmitindo a uma velocidade incomensurável. Olhamos para o meteoro, não por ser algo que acontece, mas porque é único, irrepetível.
Um evento individual partilhado é, por isso, uma fractura simbólica no espaço-tempo, porque há a percepção da simultaneidade do acontecimento, num número infinito de pontos no espaço. Sendo a distância do meteoro a cada um dos indivíduos necessariamente diferente, e tendo em conta a velocidade da luz, é razoável deduzir que este evento acontece nos corpos de cada pessoa em momentos minusculamente diferentes. A fractura acontece, por isso, na percepção, no próprio entendimento, essencialmente porque acontece fora de si, fora da casa, do planeta, provocando a noção tangível do universo, do para lá de nós.
Não sou físico, limito-me a filosofar, com base na minha própria percepção e no fascínio que nutro pelas casualidades da existência. Os possíveis registos acidentais do meteoro rapidamente se espalharam pelas redes sociais, partilhando o evento individual partilhado por todos aqueles que o experienciaram, mas principalmente pelos que não. Adjudicou-se à internet toda a reacção ao meteoro e eu só me lembro do belo que foi poder ter partilhado o momento fisicamente, com o Pedro e a Francisca, naquele silêncio sepulcral.
Tão rápido acontece, como se dissipa. O evento individual partilhado torna-se notícia, num ápice, perdendo toda a carga ontológica. De presente, vira passado, de realidade, vira memória. Esgota-se nas partilhas online e mistura-se com tudo o resto, precisamente porque se lhe removeu a sua unicidade. Num TikTok, o meteoro não é diferente de um cão que anda em duas patas, ou de uma menina que canta incrivelmente bem, e no entanto, nenhum desses outros momentos tem a carga metafísica e transcendente de um evento individual partilhado.
Tive a sorte de participar desse evento e ver o meteoro com os meus próprios olhos. Os detalhes ínfimos começam a escapar-me da memória, mas pretendo preservar o abalo cósmico e reverberante que me provocou. É o que salva do consumo.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: outside — sepalcure
Alarido: do clarão

s/título (2019) — Miguel De
Estou sentado num chão desnivelado e desconfortável, descansando os ouvidos dos tremores apressados da música que ecoa dentro da sala negra, a conversar com o Pedro e a Francisca, calmamente, quando o cimento se ilumina. Olho para o céu e por cima de mim, por cima de nós, um intenso clarão em movimento, rápido, imenso, deixando um rasto dourado brilhante persistente na escuridão durante alguns segundos. Um tempo infinitamente minúsculo, um silêncio absoluto.
Uma rapariga pousa o telemóvel no espelho de um degrau, junto à rua onde mora, com a câmara frontal apontada para si. Começa um directo no seu instagram. Está com amigos, conversam animadamente, quando o céu se ilumina. Olha para lá, boquiaberta, e por cima dela, por cima deles, um intenso clarão em movimento, rápido, imenso, deixando um rasto dourado brilhante persistente na escuridão durante alguns segundos. Um tempo infinitamente minúsculo, um silêncio absoluto.
Um rapaz caminha a passos largos por uma rua em mau estado, rodeada de eucaliptos. À sua frente seguem dois amigos. Conversam nas pausas de cada passo, parecem ter pressa. De repente, as árvores parecem reluzir. Olha para de onde a luz vem e, por cima dele, por cima deles, um intenso clarão em movimento, rápido, imenso, deixando um rasto dourado brilhante persistente na escuridão durante alguns segundos. Um tempo infinitamente minúsculo, um silêncio absoluto.
De todos estes sítios, a largos quilómetros entre si, foi possível ver o meteoro. Foi possível ver o clarão que chamou todos os olhos ao céu, e a rocha incandescente a rasgar a escuridão. Foi possível ver a linha que deixou atrás de si, as poeiras que largou arderem até ao desvanecimento, num dourado impossível, irrealista, inacreditável. Foi possível deduzir mil e uma explicações naqueles parcos segundos, porque estrelas cadentes quase todos já vimos, mas daquele tamanho? Foi visto em Portugal e em Espanha. De todos estes sítios, uma camada de planeta impossível de ver do nosso ponto de vista normal, foi possível ver o meteoro.
Do ponto de vista do meteoro, imaginando, num espaço bidimensional, que o seu brilho ilumina apenas para baixo, embatendo na superfície da Terra, o trajecto da luz projecta um círculo e, portanto, forma um cone. Todas as pessoas dentro desse cone conseguem ver o meteoro. Na superfície terrestre dentro desse amplo diâmetro da luz projectada, acontece um evento individual partilhado. As pessoas não se conseguem ver umas às outras, mas olham todas para o mesmo, ao mesmo tempo.
Não me parece existirem eventos partilhados deste tipo que tenham origem na superfície do nosso planeta, devido à necessidade de elevação extrema, estratosférica ou para lá disso. Da mesma forma, não sei até que ponto possamos até agora ter testemunhado (ou até que viremos a testemunhar) um evento individual partilhado que seja de origem humana, porque ele requer que pessoas em diferentes locais olhem para o mesmo sítio ao mesmo tempo. Talvez o mais próximo disso terá sido a aterragem na Lua, embora a necessidade da interface electrónica (a câmara, os cabos, as antenas, a televisão) para efectivamente ver o que quer que seja, cause interferência na experiência ou barreiras na comunicação ininterrupta entre o evento e o ente. A televisão, ou o ecrã, ou o digital, no fundo, são interfaces de interrupção, de quebra e aplainamento da experiência orgânica. Ver o meteorito ou ver um vídeo em directo do meteorito não são a mesma coisa.
É um evento individual porque, subitamente, no inesperado da situação, todo o universo se reduz violentamente a uma linha recta entre o indivíduo e o objecto da sua atenção plena. Naqueles segundos, o mundo desliga-se, tornado inexistente perante a descarga de energia concentrada no evento. É instintivo e animal: perante o seu fim do mundo, imagino que os dinossauros também tenham olhado para o céu.
Tal como o fechamento do mundo acontece para lá da nossa consciência, também a partilha do evento se trata de uma ampliação energética que nos ultrapassa. Ou seja, e não sendo esotérico, o evento é partilhado porque é absolutamente igual, em todas as suas características, a todos os que o experienciam. A comunicação de indivíduo para indivíduo dá-se através do meteoro, que passa a ser como um satélite de telecomunicações, recebendo e transmitindo a uma velocidade incomensurável. Olhamos para o meteoro, não por ser algo que acontece, mas porque é único, irrepetível.
Um evento individual partilhado é, por isso, uma fractura simbólica no espaço-tempo, porque há a percepção da simultaneidade do acontecimento, num número infinito de pontos no espaço. Sendo a distância do meteoro a cada um dos indivíduos necessariamente diferente, e tendo em conta a velocidade da luz, é razoável deduzir que este evento acontece nos corpos de cada pessoa em momentos minusculamente diferentes. A fractura acontece, por isso, na percepção, no próprio entendimento, essencialmente porque acontece fora de si, fora da casa, do planeta, provocando a noção tangível do universo, do para lá de nós.
Não sou físico, limito-me a filosofar, com base na minha própria percepção e no fascínio que nutro pelas casualidades da existência. Os possíveis registos acidentais do meteoro rapidamente se espalharam pelas redes sociais, partilhando o evento individual partilhado por todos aqueles que o experienciaram, mas principalmente pelos que não. Adjudicou-se à internet toda a reacção ao meteoro e eu só me lembro do belo que foi poder ter partilhado o momento fisicamente, com o Pedro e a Francisca, naquele silêncio sepulcral.
Tão rápido acontece, como se dissipa. O evento individual partilhado torna-se notícia, num ápice, perdendo toda a carga ontológica. De presente, vira passado, de realidade, vira memória. Esgota-se nas partilhas online e mistura-se com tudo o resto, precisamente porque se lhe removeu a sua unicidade. Num TikTok, o meteoro não é diferente de um cão que anda em duas patas, ou de uma menina que canta incrivelmente bem, e no entanto, nenhum desses outros momentos tem a carga metafísica e transcendente de um evento individual partilhado.
Tive a sorte de participar desse evento e ver o meteoro com os meus próprios olhos. Os detalhes ínfimos começam a escapar-me da memória, mas pretendo preservar o abalo cósmico e reverberante que me provocou. É o que salva do consumo.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: outside — sepalcure