Tomás segura o seu copo de cerveja com a mão direita. Encosta-se a uma coluna na lateral do bar, a música gritando aos seus ouvidos. As luzes rasgam os rostos e os corpos dos fugitivos da noite, obrigando-os a uma dança ritmada imperturbável. Perscruta os olhares de quem passa, procurando alguma identificação, alguma correspondência ensopada em suor. Não há nada. O seu próprio rosto é indecifrável, não diz nada, e ele sabe-o porque de repente encontra-se num espelho e, olhando para si mesmo, permite-se sair do seu corpo e entrar num éter emanado pela cerveja, como se o si que olha a si mesmo fosse outro que olha outro. Percebendo-se de fora, é incapaz de se mover, remetendo-se a uma catadupa de pensamentos desconexos que culminam num refluxo de vómito.
Entendo o meu corpo como meu, mas não parte de mim. Não me explico bem: não é o equivalente a um objecto que é meu, mas antes algo que, sendo da minha posse, é também autónomo, independente de mim. Tem mecanismos que eu desconheço, que não entendo, reage de forma espontânea, não o controlo. O meu corpo não é uma separação de mim, está separado de mim, porque a minha consciência de mim mesmo não o envolve. O entendimento do meu corpo como parte da minha identidade é apenas força do hábito, porque na maioria das vezes, funciona como uma obstrução, um limite físico à vontade de ser.
Acordo sobressaltado e o meu copo de cerveja não existe mais. Ouço a música latejar distorcida do lado direito e vejo pouco. Uma voz grave diz-me algo mas não entendo. Um corpo cambaleia junto a mim, pousa pesadamente a sua mão nas minhas costas. Estou na casa de banho, estou sentado numa sanita, a cabeça apoiada na parede, a porta aberta e gajos a entrar e sair, mijam e cantam e berram. Lavam as mãos e sacodem-nas para o ar, porque o papel já se foi. Preparam uma linha de coca e cheiram-na sofregamente. Empurram-se uns aos outros para ganhar espaço. Esperam impacientemente numa fila imaginada para os urinóis. Têm as pupilas dilatadas, como se tentassem engolir tudo ao mesmo tempo. A voz retorna e é o rapaz que me pergunta se me sinto bem. Aceno. Estou bem porque estou acordado. Estou mal porque estou acordado. Lembro-me do que aconteceu e sinto-me estúpido. Consegui chegar à sanita antes de fazer um desastre na pista, mas foda-se, vomitar; quê, tenho vinte anos? Estou bem, sim, não te preocupes.
A sua mão é feita de veias. Só veias. Não tem ossos, não tem músculo, nem pele. Só veias. De seguida, a cama. Tomás deita-se, as paredes parecem dançar à sua volta, bebeu demais, bebeu mais do que bebia há muito tempo e o seu corpo não aguentou. Forneceu ao seu corpo veneno inebriante para acalmar a mente. Magoou o seu corpo para refastelar a sua consciência. O teu corpo é um receptáculo: nele depositas-te, como uma casa que habitas. Por mais que me desvie, chego sempre à resolução de uma separação definitiva entre quem sou e o corpo que tenho.
O teu corpo trai-te nos movimentos de cada dia. A tua percepção da passagem do tempo é marcada nas rugas que te surgem nos cantos dos olhos. O teu corpo envelhece à tua frente e dentro de ti. A tua máquina enferruja enquanto te lembra da sua caducidade. A tua consciência de ti próprio é incompatível com a duração do teu corpo. E assim, olhas-te ao espelho, Tomás, e o que vês é estrangeiro. É uma impossibilidade logística. O teu corpo não te pertence na medida em que não o controlas. E essa falta de controlo é o ataque de pânico que a tua consciência sofre no momento da sua falência. Olhas-te ao espelho. Olhas-te ao espelho. Não gostas do que vês. Não és tu. Não podes ser tu. Não posso ser eu.
A vontade de ser escapa aos meus dedos. Em frente ao espelho do ginásio, ele estende o telemóvel e fotografa o seu corpo após hora e meia de treino intenso. Os músculos parecem querer fugir, empurram a pele e as veias para fora dos seus limites. Força o abdómen a empenhar um terreno de socalcos profundos, tentando que não se note a veia do pescoço pulsante. Saca a fotografia. Duas, três, quatro. Posiciona-se sob a luz de cima do balneário de forma estratégica, evidenciando a sua musculatura. Flecte o bicep do braço que não se ocupa com o telemóvel, coloca a perna oposta ligeiramente de lado e faz força. Um outro rapaz entra no balneário e ele guarda o telemóvel.
Em casa, verifica o instagram e repara que recebeu quase quatrocentos gostos no espaço de meia hora. Olha para a sua fotografia de novo, para o seu corpo, para o corpo do seu corpo, e, num instante, parece olhar para outra pessoa. Não se reconhece naquela pele, não se reconhece naquele rosto. A sua foto não representa o que viu no espelho. O que vê no espelho não representa a pessoa que sente ser. Perante tal dissonância, trabalha o corpo. Trabalha-o como se a um objecto qualquer. Domina o seu corpo porque lhe pertence, e o resultado dessa dominação é a disciplina.
Quando amam o seu corpo, é como se saísse dele. No canto do quarto, chora ao som dos gemidos de prazer. É particularmente sensível no pescoço: quando lhe passam a língua devagar, é dominado pelo seu corpo e os papéis invertem-se. Nesse momento ínfimo, lembra-se de ser bebé e não saber que tem corpo e que a sua existência se define pela passividade de existir.
Tomás entra no balneário do ginásio e repara no rapaz de tronco nu a baixar rapidamente o telemóvel. Pousa o seu saco no banco à esquerda e começa a descalçar as sapatilhas. Repara na respiração profunda do rapaz, que se perdeu no telemóvel. Depois olha para os seus pés cobertos por meias brancas e questiona-se se vale a pena o esforço.
Quando amam o corpo de Tomás, sente-se incapaz de não transferir o seu olhar para o da outra pessoa e ver-se pelos seus olhos. Trespassa-lhe uma sensação de vergonha e timidez, e não compreende como conseguem amar o seu corpo. Permite-se ao prazer, sempre como se nunca mais fosse acontecer. O seu corpo reage aos estímulos, mas Tomás sente-se preso a uma expectativa de relaxamento. Na incapacidade de se rever no seu corpo, desmultiplica-se e adormece num qualquer canto recôndito da sua inconsciência.
Uma vez deixou-se amar por outro rapaz. Pelo suor da noite, enquanto dançava com o seu copo de cerveja na mão, reparou num olhar repetido vindo de um rosto uns metros à sua direita. O rapaz parecia da sua idade, mas ao mesmo tempo ligeiramente mais velho. Bebia, de um copo alto, um líquido indecifrável naquela escuridão. O olhar ia e vinha, como se avaliasse a disponibilidade. Tomás terminou a sua quarta? quinta? sexta? cerveja e olhou para os lados, procurando a rapariga com quem tinha estado a falar. Não a viu mais essa noite. Olhou de relance para o rapaz, demorou-se um milésimo de segundo a mais. O rapaz começou a caminhar em direção ao bar e Tomás, que se preparava para ir também, foi atrás. Deixou distância. Na cadência do rapaz, Tomás reviu-se. Caminhava como se carregasse um segredo. Um peso. Caminhei também como se carregasse um segredo, um peso. Naquele momento, partilhámos a dúvida de cada passo, como se nos víssemos de fora dos nossos corpos. Pagou-lhe a cerveja. Falou com Tomás. Percebeu o interesse, a adrenalina invadiu-lhe o peito. Dançaram juntos o resto da noite. No torpor do álcool, deixou-se beijar. Não foi nada de especial. Foi anormalmente calmo. Depois afastou-se, cambaleando, e encostou-se a uma coluna.
De repente encontra-se num espelho e, olhando para si mesmo, permite-se sair do seu corpo e entrar num éter emanado pela cerveja, como se o si que olha a si mesmo fosse outro que olha outro. Percebendo-se de fora, é incapaz de se mover, remetendo-se a uma catadupa de pensamentos desconexos que culminam num refluxo de vómito.
Acorda sobressaltado e o seu copo de cerveja não existe mais. Ouve a música latejar distorcida do lado direito e não vê quase nada. Uma voz grave diz-lhe algo mas não entende. Um corpo cambaleia junto a ele, pousa pesadamente a sua mão nas suas costas. Pergunta-lhe se está bem e ele acena.
Voltam juntos para casa de Tomás. Deixa-o entrar em sua casa, não percebe bem porquê nem para quê. Em frente ao seu sofá, Tomás olha para o rapaz. Não temos que fazer nada, diz ele. Tomás acena. Ficou sóbrio de repente. Quis perguntar-lhe porque veio com ele para casa. És muito bonito, disse o rapaz, quebrando o silêncio. Tomás pega-lhe na mão direita e sente-lhe os dedos.
A noite foi de sexo frio e desencantado. Como se o peso ou a vergonha lhe saíssem de cima, o rapaz envergou uma personagem que não lhe pertencia e dominou o corpo de Tomás. Por “deixar amar”, preciso de clarificar que quero dizer “deixar usar”. O rapaz que conheceu ficou a aguardar sentado no sofá da sala, enquanto o seu corpo suado o possuía na sua cama. Os grunhidos que lançou, como um animal, embevecidos pelas grossas gotas de suor que lhe escorriam pela cara e lhe caiam pela barba em cima do peito de Tomás, pareciam distantes da leveza com que lhe tecera um elogio. As suas mãos pequenas pesavam-lhe sobre a clavícula, enquanto se empurrava fortemente para dentro de si. O imenso amor que Tomás sentiu quando lhe segurou a mão, ainda há instantes, ficou com ele no sofá. Naquela cama, só houve movimento e água e sal. Quando Tomás acordou, estava sozinho, e foi como se nada tivesse acontecido. Ninguém no sofá.
É verão e chove lá fora. Este ano tomei quatrocentos e doze comprimidos. Não sei o que lhes acontece quando chegam ao estômago.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: at commissure — solo andata
Alarido: da separação

s/título (2024) — Miguel De
Tomás segura o seu copo de cerveja com a mão direita. Encosta-se a uma coluna na lateral do bar, a música gritando aos seus ouvidos. As luzes rasgam os rostos e os corpos dos fugitivos da noite, obrigando-os a uma dança ritmada imperturbável. Perscruta os olhares de quem passa, procurando alguma identificação, alguma correspondência ensopada em suor. Não há nada. O seu próprio rosto é indecifrável, não diz nada, e ele sabe-o porque de repente encontra-se num espelho e, olhando para si mesmo, permite-se sair do seu corpo e entrar num éter emanado pela cerveja, como se o si que olha a si mesmo fosse outro que olha outro. Percebendo-se de fora, é incapaz de se mover, remetendo-se a uma catadupa de pensamentos desconexos que culminam num refluxo de vómito.
Entendo o meu corpo como meu, mas não parte de mim. Não me explico bem: não é o equivalente a um objecto que é meu, mas antes algo que, sendo da minha posse, é também autónomo, independente de mim. Tem mecanismos que eu desconheço, que não entendo, reage de forma espontânea, não o controlo. O meu corpo não é uma separação de mim, está separado de mim, porque a minha consciência de mim mesmo não o envolve. O entendimento do meu corpo como parte da minha identidade é apenas força do hábito, porque na maioria das vezes, funciona como uma obstrução, um limite físico à vontade de ser.
Acordo sobressaltado e o meu copo de cerveja não existe mais. Ouço a música latejar distorcida do lado direito e vejo pouco. Uma voz grave diz-me algo mas não entendo. Um corpo cambaleia junto a mim, pousa pesadamente a sua mão nas minhas costas. Estou na casa de banho, estou sentado numa sanita, a cabeça apoiada na parede, a porta aberta e gajos a entrar e sair, mijam e cantam e berram. Lavam as mãos e sacodem-nas para o ar, porque o papel já se foi. Preparam uma linha de coca e cheiram-na sofregamente. Empurram-se uns aos outros para ganhar espaço. Esperam impacientemente numa fila imaginada para os urinóis. Têm as pupilas dilatadas, como se tentassem engolir tudo ao mesmo tempo. A voz retorna e é o rapaz que me pergunta se me sinto bem. Aceno. Estou bem porque estou acordado. Estou mal porque estou acordado. Lembro-me do que aconteceu e sinto-me estúpido. Consegui chegar à sanita antes de fazer um desastre na pista, mas foda-se, vomitar; quê, tenho vinte anos? Estou bem, sim, não te preocupes.
A sua mão é feita de veias. Só veias. Não tem ossos, não tem músculo, nem pele. Só veias. De seguida, a cama. Tomás deita-se, as paredes parecem dançar à sua volta, bebeu demais, bebeu mais do que bebia há muito tempo e o seu corpo não aguentou. Forneceu ao seu corpo veneno inebriante para acalmar a mente. Magoou o seu corpo para refastelar a sua consciência. O teu corpo é um receptáculo: nele depositas-te, como uma casa que habitas. Por mais que me desvie, chego sempre à resolução de uma separação definitiva entre quem sou e o corpo que tenho.
O teu corpo trai-te nos movimentos de cada dia. A tua percepção da passagem do tempo é marcada nas rugas que te surgem nos cantos dos olhos. O teu corpo envelhece à tua frente e dentro de ti. A tua máquina enferruja enquanto te lembra da sua caducidade. A tua consciência de ti próprio é incompatível com a duração do teu corpo. E assim, olhas-te ao espelho, Tomás, e o que vês é estrangeiro. É uma impossibilidade logística. O teu corpo não te pertence na medida em que não o controlas. E essa falta de controlo é o ataque de pânico que a tua consciência sofre no momento da sua falência. Olhas-te ao espelho. Olhas-te ao espelho. Não gostas do que vês. Não és tu. Não podes ser tu. Não posso ser eu.
A vontade de ser escapa aos meus dedos. Em frente ao espelho do ginásio, ele estende o telemóvel e fotografa o seu corpo após hora e meia de treino intenso. Os músculos parecem querer fugir, empurram a pele e as veias para fora dos seus limites. Força o abdómen a empenhar um terreno de socalcos profundos, tentando que não se note a veia do pescoço pulsante. Saca a fotografia. Duas, três, quatro. Posiciona-se sob a luz de cima do balneário de forma estratégica, evidenciando a sua musculatura. Flecte o bicep do braço que não se ocupa com o telemóvel, coloca a perna oposta ligeiramente de lado e faz força. Um outro rapaz entra no balneário e ele guarda o telemóvel.
Em casa, verifica o instagram e repara que recebeu quase quatrocentos gostos no espaço de meia hora. Olha para a sua fotografia de novo, para o seu corpo, para o corpo do seu corpo, e, num instante, parece olhar para outra pessoa. Não se reconhece naquela pele, não se reconhece naquele rosto. A sua foto não representa o que viu no espelho. O que vê no espelho não representa a pessoa que sente ser. Perante tal dissonância, trabalha o corpo. Trabalha-o como se a um objecto qualquer. Domina o seu corpo porque lhe pertence, e o resultado dessa dominação é a disciplina.
Quando amam o seu corpo, é como se saísse dele. No canto do quarto, chora ao som dos gemidos de prazer. É particularmente sensível no pescoço: quando lhe passam a língua devagar, é dominado pelo seu corpo e os papéis invertem-se. Nesse momento ínfimo, lembra-se de ser bebé e não saber que tem corpo e que a sua existência se define pela passividade de existir.
Tomás entra no balneário do ginásio e repara no rapaz de tronco nu a baixar rapidamente o telemóvel. Pousa o seu saco no banco à esquerda e começa a descalçar as sapatilhas. Repara na respiração profunda do rapaz, que se perdeu no telemóvel. Depois olha para os seus pés cobertos por meias brancas e questiona-se se vale a pena o esforço.
Quando amam o corpo de Tomás, sente-se incapaz de não transferir o seu olhar para o da outra pessoa e ver-se pelos seus olhos. Trespassa-lhe uma sensação de vergonha e timidez, e não compreende como conseguem amar o seu corpo. Permite-se ao prazer, sempre como se nunca mais fosse acontecer. O seu corpo reage aos estímulos, mas Tomás sente-se preso a uma expectativa de relaxamento. Na incapacidade de se rever no seu corpo, desmultiplica-se e adormece num qualquer canto recôndito da sua inconsciência.
Uma vez deixou-se amar por outro rapaz. Pelo suor da noite, enquanto dançava com o seu copo de cerveja na mão, reparou num olhar repetido vindo de um rosto uns metros à sua direita. O rapaz parecia da sua idade, mas ao mesmo tempo ligeiramente mais velho. Bebia, de um copo alto, um líquido indecifrável naquela escuridão. O olhar ia e vinha, como se avaliasse a disponibilidade. Tomás terminou a sua quarta? quinta? sexta? cerveja e olhou para os lados, procurando a rapariga com quem tinha estado a falar. Não a viu mais essa noite. Olhou de relance para o rapaz, demorou-se um milésimo de segundo a mais. O rapaz começou a caminhar em direção ao bar e Tomás, que se preparava para ir também, foi atrás. Deixou distância. Na cadência do rapaz, Tomás reviu-se. Caminhava como se carregasse um segredo. Um peso. Caminhei também como se carregasse um segredo, um peso. Naquele momento, partilhámos a dúvida de cada passo, como se nos víssemos de fora dos nossos corpos. Pagou-lhe a cerveja. Falou com Tomás. Percebeu o interesse, a adrenalina invadiu-lhe o peito. Dançaram juntos o resto da noite. No torpor do álcool, deixou-se beijar. Não foi nada de especial. Foi anormalmente calmo. Depois afastou-se, cambaleando, e encostou-se a uma coluna.
De repente encontra-se num espelho e, olhando para si mesmo, permite-se sair do seu corpo e entrar num éter emanado pela cerveja, como se o si que olha a si mesmo fosse outro que olha outro. Percebendo-se de fora, é incapaz de se mover, remetendo-se a uma catadupa de pensamentos desconexos que culminam num refluxo de vómito.
Acorda sobressaltado e o seu copo de cerveja não existe mais. Ouve a música latejar distorcida do lado direito e não vê quase nada. Uma voz grave diz-lhe algo mas não entende. Um corpo cambaleia junto a ele, pousa pesadamente a sua mão nas suas costas. Pergunta-lhe se está bem e ele acena.
Voltam juntos para casa de Tomás. Deixa-o entrar em sua casa, não percebe bem porquê nem para quê. Em frente ao seu sofá, Tomás olha para o rapaz. Não temos que fazer nada, diz ele. Tomás acena. Ficou sóbrio de repente. Quis perguntar-lhe porque veio com ele para casa. És muito bonito, disse o rapaz, quebrando o silêncio. Tomás pega-lhe na mão direita e sente-lhe os dedos.
A noite foi de sexo frio e desencantado. Como se o peso ou a vergonha lhe saíssem de cima, o rapaz envergou uma personagem que não lhe pertencia e dominou o corpo de Tomás. Por “deixar amar”, preciso de clarificar que quero dizer “deixar usar”. O rapaz que conheceu ficou a aguardar sentado no sofá da sala, enquanto o seu corpo suado o possuía na sua cama. Os grunhidos que lançou, como um animal, embevecidos pelas grossas gotas de suor que lhe escorriam pela cara e lhe caiam pela barba em cima do peito de Tomás, pareciam distantes da leveza com que lhe tecera um elogio. As suas mãos pequenas pesavam-lhe sobre a clavícula, enquanto se empurrava fortemente para dentro de si. O imenso amor que Tomás sentiu quando lhe segurou a mão, ainda há instantes, ficou com ele no sofá. Naquela cama, só houve movimento e água e sal. Quando Tomás acordou, estava sozinho, e foi como se nada tivesse acontecido. Ninguém no sofá.
É verão e chove lá fora. Este ano tomei quatrocentos e doze comprimidos. Não sei o que lhes acontece quando chegam ao estômago.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: at commissure — solo andata