Falhar é fazer falta. Faz falta percorrer os caminhos outrora hipotéticos, outrora quotidianos. Faz falta introduzir conceitos alienígenas numa conversa aberrante ao sábado à noite. Ao sábado à noite bebe-se fuma-se conversa-se grita-se dança-se. Ao sábado à noite é domingo de manhã. Faz falta o espaço intermédio, límbico, entre a noite e a manhã, feito de tempo prenhe de possibilidades, antes da conclusão da expectativa, que se faz de um vazio que começa no âmago e termina no copo deixado num parapeito qualquer.
Como falhar um degrau ao descer as escadas equivale a um tropeço que implica um solavanco na respiração e um interregno na gravidade do batimento cardíaco, é razoável considerar-se a falha como uma interrupção do suave e do polido, como uma furação na perfeição da narrativa linear. Falho um degrau, mas não caio, e por isso continuo a minha jornada e esta falha não constará na história da minha vida, porque é inconsequente.
Inconsequente é o olá que ficou por dizer ao rapaz que viste na noite de sábado. Voltas para casa com a memória da história da tua vida se o tivesses verbalizado. O olá seria o marcador determinante, o beat essencial do teu filme. A tua história é, novamente, uma linha ininterrupta de degraus que culminam em algo. Todo o teu passado é uma progressão para o teu presente, que fará parte da progressão para o teu futuro. Todo? Nesse todo, onde está aquele degrau que falhaste a descer as escadas?
O rapaz foi-se embora de copo na mão, entornou a cerveja morta num vaso ali ao lado. Não te viu, não sabe quem és, não sabe que ficou um olá por dizer. E este é o ponto: nunca saberias disto de outra forma. Sabes porque eu te digo. E tens de confiar em mim para isto ser verdade. O rapaz que viste não existe, porque o que viste é a tua experiência da realidade, completamente independente da dele, que inclui a experiência da sua própria existência. Vou complicar porque gosto de cair num vórtex de confusão: olhaste para o rapaz e construíste na tua mente, a partir da imagem projectada na tua retina, a ideia do rapaz, sumptuosamente moldada às tuas expectativas e leituras. Esse rapaz não existe, porque é uma criação da tua cabeça. Mais: o rapaz que olhas, mesmo que fosses incapaz de lhe atribuir uma narrativa, não é mais do que o teu olhar sobre ele. Ou melhor, é absolutamente mais que isso, mas para ti não. Quem é, então, o rapaz? Impossível saber. Mesmo que ele te conte tudo sobre ele, mesmo que o vejas em todo o detalhe possível, absorverás toda essa informação através de uma lente partida, beliscada pela tua experiência. Nunca conhecerás nada, nem ninguém, em absoluto. Nem mesmo a ti próprio. A tua visão do mundo é falhada, por defeito.
Portanto, o degrau que falhaste ao descer as escadas é um acto inexoravelmente estático. Dentro desse momento de infinitude, esquecer, ou não incluí-lo na história da tua vida, foi uma decisão tua. A importância (ou não importância) dada a esse momento é isso mesmo, uma atribuição. O momento em si não é nada, não contém qualquer possibilidade, porque é estático, existe num presente petrificado, em coabitação com todos os outros momentos que existem nos seus próprios presentes, apenas alinhados numa temporalidade e espacialidade que só existe na sua leitura e experiência. Ou seja, todos os momentos no infinito existem ao mesmo tempo e no mesmo espaço, na medida em que o tempo e o espaço não existem, a não ser como percepção da pessoa que os vive, que, por vivê-los, faz também ela parte deles. Eu não inventei nada disto, Kant disse mais ou menos a mesma coisa há 250 anos.
Isto significa que, por sermos humanos, toda a nossa experiência está toldada de falhas. A história da tua vida é feita essencialmente de degraus em que tropeçaste e que escolheste esquecer. Na potencialidade da falha, diz Ricoeur, para atirar mais um nome aqui para o meio, encontra-se a possibilidade da queda, do mal. Em cada degrau que falhas, e falharás vários degraus, vê-se o inverso no espelho. Por cada olá que ficou por dizer (e inauguramos outra falha), absorve-te a existência da queda. Cair significa nascer-se no mal. O mal gera-se, portanto, não como ente desconexo de ti, mas como produto da tua imperfeição. Essa imperfeição pode ser vista como necessária para te distanciar do divino, única fonte de perfeição, mas a criação de ideais de maravilhamento religioso aborrece-me e ofusca a possibilidade de um caminho para o bem desinteressado. Ou interessado mas não individualista, não voltado a si mesmo.
Imperfeitos, na medida em que a perfeição é uma criação humana que não existe materializada em parte alguma, estamos condenados a falhar degraus e a evitar o sedutor sussurro do mal. Entendamos o mal não como moral, porque isso muda constantemente, mas como semente causadora de disrupção interna e canibalismo. O mal é a força destruidora de si própria, gerada pelo ser que se autodestrói. É também uma escolha. Esquecer os degraus que falhamos deixa esses momentos presentes por resolver, cristalizados no éter do infinito, abertos a serem reapropriados para a geração do mal.
A falha pertence-te. Fazer falta pertence-te. Procurar, dentro do teu âmago, os furos deixados pelos degraus falhados, é um acto de resolução. Transforma a linearidade de uma narrativa simbólica da tua vida numa constelação afectiva multidimensional, delineada por relações que atravessam a tua perspectiva linear da vida. No momento da tua expiração, poderás ver, à tua frente, todos os momentos presentes que constituem a tua vida e a tua vida na vida dos outros, em pé de igualdade, ao mesmo tempo, no mesmo espaço, um mosaico infinito em que habitarás para toda a eternidade.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: new animals from the air — eluvium
Alarido: da falha

s/título (2017) — Miguel De
Falhar é fazer falta. Faz falta percorrer os caminhos outrora hipotéticos, outrora quotidianos. Faz falta introduzir conceitos alienígenas numa conversa aberrante ao sábado à noite. Ao sábado à noite bebe-se fuma-se conversa-se grita-se dança-se. Ao sábado à noite é domingo de manhã. Faz falta o espaço intermédio, límbico, entre a noite e a manhã, feito de tempo prenhe de possibilidades, antes da conclusão da expectativa, que se faz de um vazio que começa no âmago e termina no copo deixado num parapeito qualquer.
Como falhar um degrau ao descer as escadas equivale a um tropeço que implica um solavanco na respiração e um interregno na gravidade do batimento cardíaco, é razoável considerar-se a falha como uma interrupção do suave e do polido, como uma furação na perfeição da narrativa linear. Falho um degrau, mas não caio, e por isso continuo a minha jornada e esta falha não constará na história da minha vida, porque é inconsequente.
Inconsequente é o olá que ficou por dizer ao rapaz que viste na noite de sábado. Voltas para casa com a memória da história da tua vida se o tivesses verbalizado. O olá seria o marcador determinante, o beat essencial do teu filme. A tua história é, novamente, uma linha ininterrupta de degraus que culminam em algo. Todo o teu passado é uma progressão para o teu presente, que fará parte da progressão para o teu futuro. Todo? Nesse todo, onde está aquele degrau que falhaste a descer as escadas?
O rapaz foi-se embora de copo na mão, entornou a cerveja morta num vaso ali ao lado. Não te viu, não sabe quem és, não sabe que ficou um olá por dizer. E este é o ponto: nunca saberias disto de outra forma. Sabes porque eu te digo. E tens de confiar em mim para isto ser verdade. O rapaz que viste não existe, porque o que viste é a tua experiência da realidade, completamente independente da dele, que inclui a experiência da sua própria existência. Vou complicar porque gosto de cair num vórtex de confusão: olhaste para o rapaz e construíste na tua mente, a partir da imagem projectada na tua retina, a ideia do rapaz, sumptuosamente moldada às tuas expectativas e leituras. Esse rapaz não existe, porque é uma criação da tua cabeça. Mais: o rapaz que olhas, mesmo que fosses incapaz de lhe atribuir uma narrativa, não é mais do que o teu olhar sobre ele. Ou melhor, é absolutamente mais que isso, mas para ti não. Quem é, então, o rapaz? Impossível saber. Mesmo que ele te conte tudo sobre ele, mesmo que o vejas em todo o detalhe possível, absorverás toda essa informação através de uma lente partida, beliscada pela tua experiência. Nunca conhecerás nada, nem ninguém, em absoluto. Nem mesmo a ti próprio. A tua visão do mundo é falhada, por defeito.
Portanto, o degrau que falhaste ao descer as escadas é um acto inexoravelmente estático. Dentro desse momento de infinitude, esquecer, ou não incluí-lo na história da tua vida, foi uma decisão tua. A importância (ou não importância) dada a esse momento é isso mesmo, uma atribuição. O momento em si não é nada, não contém qualquer possibilidade, porque é estático, existe num presente petrificado, em coabitação com todos os outros momentos que existem nos seus próprios presentes, apenas alinhados numa temporalidade e espacialidade que só existe na sua leitura e experiência. Ou seja, todos os momentos no infinito existem ao mesmo tempo e no mesmo espaço, na medida em que o tempo e o espaço não existem, a não ser como percepção da pessoa que os vive, que, por vivê-los, faz também ela parte deles. Eu não inventei nada disto, Kant disse mais ou menos a mesma coisa há 250 anos.
Isto significa que, por sermos humanos, toda a nossa experiência está toldada de falhas. A história da tua vida é feita essencialmente de degraus em que tropeçaste e que escolheste esquecer. Na potencialidade da falha, diz Ricoeur, para atirar mais um nome aqui para o meio, encontra-se a possibilidade da queda, do mal. Em cada degrau que falhas, e falharás vários degraus, vê-se o inverso no espelho. Por cada olá que ficou por dizer (e inauguramos outra falha), absorve-te a existência da queda. Cair significa nascer-se no mal. O mal gera-se, portanto, não como ente desconexo de ti, mas como produto da tua imperfeição. Essa imperfeição pode ser vista como necessária para te distanciar do divino, única fonte de perfeição, mas a criação de ideais de maravilhamento religioso aborrece-me e ofusca a possibilidade de um caminho para o bem desinteressado. Ou interessado mas não individualista, não voltado a si mesmo.
Imperfeitos, na medida em que a perfeição é uma criação humana que não existe materializada em parte alguma, estamos condenados a falhar degraus e a evitar o sedutor sussurro do mal. Entendamos o mal não como moral, porque isso muda constantemente, mas como semente causadora de disrupção interna e canibalismo. O mal é a força destruidora de si própria, gerada pelo ser que se autodestrói. É também uma escolha. Esquecer os degraus que falhamos deixa esses momentos presentes por resolver, cristalizados no éter do infinito, abertos a serem reapropriados para a geração do mal.
A falha pertence-te. Fazer falta pertence-te. Procurar, dentro do teu âmago, os furos deixados pelos degraus falhados, é um acto de resolução. Transforma a linearidade de uma narrativa simbólica da tua vida numa constelação afectiva multidimensional, delineada por relações que atravessam a tua perspectiva linear da vida. No momento da tua expiração, poderás ver, à tua frente, todos os momentos presentes que constituem a tua vida e a tua vida na vida dos outros, em pé de igualdade, ao mesmo tempo, no mesmo espaço, um mosaico infinito em que habitarás para toda a eternidade.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: new animals from the air — eluvium