A página em branco é um terror.
Tocar uma única nota num piano, enquanto se pressiona o pedal da sustentação, para que o som se prolongue o mais possível, abafando-se lentamente na propagação que dita a sua morte. Tocar outra vez na mesma tecla, a mesma nota, o mesmo pedal, durante o mesmo tempo.
Filmar alguém a dormir. Manter o plano fixo focado no rosto, ou nas mãos, e continuá-lo. Os segundos contam-se, os minutos sucedem-se. Olhar para os dedos e notar nos ligeiros movimentos provocados pelo sono.
Aguardar a chegada do autocarro, olhando para a esquina ao fundo da rua, que não se altera. Ouve-se o vento nas árvores e mais nada. O autocarro não chega.
Uma fotografia, sem interrupções.
A capa de um livro que nunca vais abrir.
Tocar de novo na tecla do piano e ouvir o ressoar da nota nas paredes. Estás sozinho em casa e ninguém ouve o piano. Absolutamente ninguém. É impossível ouvir o piano.
Guibert disse que “a fotografia está ligada ao silêncio”. De novo, uma fotografia, sem interrupções. Não sei descrevê-la porque não a compreendo, e isso é o que me fascina mais nela. Não quebro o meu olhar porque me parece que estou a todo o momento no limiar do entendimento. Nunca chego lá e inevitavelmente tenho de olhar para outra coisa.
Não tenhamos ilusões: não há tempo suficiente para atingir o entendimento do que quer que seja. É preciso olhar, desinteressada e atentamente, para o objecto de desejo, desconfigurá-lo em formas simples, desmontá-lo ao seu singular, para ser-se capaz de entendê-lo. Entender algo implica absorvê-lo no incomensurável labirinto da existência. Implica um desmontar da própria complicação. Só na simplicidade acontece o entendimento. Não há nada mais difícil que se ser simples. Não há nada mais difícil que abandonar o ego. Não há tempo suficiente para esse exercício, porque ele dura mais que a vida toda. Distende-se como se torce um músculo, a dor alastra-se por toda a superfície aumentada. A dor é o desconforto do igual. Porque o igual não se altera, não existe novidade. Porque não existe novidade, a cabeça dói. Nasce o aborrecimento e, como a uma doença, medicamo-lo.
Toco novamente a nota no piano. Toco sempre que a anterior acaba, porque gostava que ela se mantivesse, que durasse para sempre, que vivesse mais que eu, mais que todas as pessoas, mais que todas as cidades e todo o mundo, mais que todos os planetas e todas as estrelas, mais do que todo o universo e o que para lá dele existe. Que a nota se mantivesse inalterável e impenetrável, que existisse sem princípio nem fim. Que o meu toque na tecla não tivesse existido, porque já havia nota antes de mim. Não existe novidade e a cabeça dói. Não tenho tempo para compreender, porque tenho de ir dormir.
No silêncio da noite, imagino o sono. Enquanto durmo, os meus olhos veem o interior do meu crânio e nunca me lembro do que vejo. Não tenho como controlar a capacidade da minha memória, como se ela fosse uma parte exterior a mim, que me fornece informação sempre que necessário. Imagino o apagamento da memória como a formatação de um cartão da minha máquina fotográfica, um movimento sem toque, sem textura. Apenas a existência e depois a inexistência, numa transição quase instantânea e silenciosa. Imagino estar consciente da falta de memória, lembrar-me de que me lembrava de coisas concretas e agora não. Imagino o terror da perda como um inverso do terror da página em branco. Imagino a velhice estendida para lá do tolerável e o medo de morrer, do apagamento da nota. Imagino, enquanto ainda me é permitido.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: palestrina sicut — max cooper
Alarido: da distensão

s/título (2022) — Miguel De
A página em branco é um terror.
Tocar uma única nota num piano, enquanto se pressiona o pedal da sustentação, para que o som se prolongue o mais possível, abafando-se lentamente na propagação que dita a sua morte. Tocar outra vez na mesma tecla, a mesma nota, o mesmo pedal, durante o mesmo tempo.
Filmar alguém a dormir. Manter o plano fixo focado no rosto, ou nas mãos, e continuá-lo. Os segundos contam-se, os minutos sucedem-se. Olhar para os dedos e notar nos ligeiros movimentos provocados pelo sono.
Aguardar a chegada do autocarro, olhando para a esquina ao fundo da rua, que não se altera. Ouve-se o vento nas árvores e mais nada. O autocarro não chega.
Uma fotografia, sem interrupções.
A capa de um livro que nunca vais abrir.
Tocar de novo na tecla do piano e ouvir o ressoar da nota nas paredes. Estás sozinho em casa e ninguém ouve o piano. Absolutamente ninguém. É impossível ouvir o piano.
Guibert disse que “a fotografia está ligada ao silêncio”. De novo, uma fotografia, sem interrupções. Não sei descrevê-la porque não a compreendo, e isso é o que me fascina mais nela. Não quebro o meu olhar porque me parece que estou a todo o momento no limiar do entendimento. Nunca chego lá e inevitavelmente tenho de olhar para outra coisa.
Não tenhamos ilusões: não há tempo suficiente para atingir o entendimento do que quer que seja. É preciso olhar, desinteressada e atentamente, para o objecto de desejo, desconfigurá-lo em formas simples, desmontá-lo ao seu singular, para ser-se capaz de entendê-lo. Entender algo implica absorvê-lo no incomensurável labirinto da existência. Implica um desmontar da própria complicação. Só na simplicidade acontece o entendimento. Não há nada mais difícil que se ser simples. Não há nada mais difícil que abandonar o ego. Não há tempo suficiente para esse exercício, porque ele dura mais que a vida toda. Distende-se como se torce um músculo, a dor alastra-se por toda a superfície aumentada. A dor é o desconforto do igual. Porque o igual não se altera, não existe novidade. Porque não existe novidade, a cabeça dói. Nasce o aborrecimento e, como a uma doença, medicamo-lo.
Toco novamente a nota no piano. Toco sempre que a anterior acaba, porque gostava que ela se mantivesse, que durasse para sempre, que vivesse mais que eu, mais que todas as pessoas, mais que todas as cidades e todo o mundo, mais que todos os planetas e todas as estrelas, mais do que todo o universo e o que para lá dele existe. Que a nota se mantivesse inalterável e impenetrável, que existisse sem princípio nem fim. Que o meu toque na tecla não tivesse existido, porque já havia nota antes de mim. Não existe novidade e a cabeça dói. Não tenho tempo para compreender, porque tenho de ir dormir.
No silêncio da noite, imagino o sono. Enquanto durmo, os meus olhos veem o interior do meu crânio e nunca me lembro do que vejo. Não tenho como controlar a capacidade da minha memória, como se ela fosse uma parte exterior a mim, que me fornece informação sempre que necessário. Imagino o apagamento da memória como a formatação de um cartão da minha máquina fotográfica, um movimento sem toque, sem textura. Apenas a existência e depois a inexistência, numa transição quase instantânea e silenciosa. Imagino estar consciente da falta de memória, lembrar-me de que me lembrava de coisas concretas e agora não. Imagino o terror da perda como um inverso do terror da página em branco. Imagino a velhice estendida para lá do tolerável e o medo de morrer, do apagamento da nota. Imagino, enquanto ainda me é permitido.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: palestrina sicut — max cooper