Mudei de casa. Aconteceu por força das circunstâncias, não porque tenha tomado a decisão consciente de fazê-lo. Os contratos renovam-se ou terminam e, no meu caso, ficou por renovar. Aconteceu no último mês do ano passado, como que me preparando para um ano de inquietude. Serviu talvez como o empurrão que precisava para resolver o impasse de uma casa onde vivia mas que não me representava e, principalmente, que começava a dar sinais da necessidade de uma manutenção algo complicada.
Teve de ser. E nas decisões a tomar, deixei de suportar um senhorio para ficar refém de um banco. O processo é previsivelmente burocrático e extenuante, e muito pouco interessante. Sabia que queria escrever uma destas cartas sobre esta mudança, mas queria aguardar até me instalar na casa nova, porque adivinhava o que se avizinhava.
Há uma relação emocional que se cria com as paredes e o tecto onde se habita e sabia que este abanar das esferas de equilíbrio do meu corpo ia causar-me ansiedade. É natural, é uma mudança e somos-lhes resistentes. Preferimos o conhecido e o confortável, porque sabemos com o que contar. Principalmente no que toca ao nosso espaço seguro, a nossa casa, o local para onde nos refugiamos quando o mundo externo não encaixa.
Em todo este processo, durante as fatigantes mudanças e principalmente agora que as coisas acalmaram, pude reflectir sobre esta coisa da casa, do espaço, do hábito e do desarme dentro de portas.
Tenho tendência a mapear os espaços em que me habituo de uma forma ordenada por caminhos de circulação. Imagino paredes que delineiam os passeios por onde posso andar, cortados por saídas que se dirigem a portas de acesso a outras salas. Não te consigo definir os momentos em que essas imagens me aparecem na cabeça, mas, por vezes, lá surge um hall do infantário onde andei, visto de quem desce as escadas que fazem esquina e que revelam um espaço vazio com duas portas de WC na ponta da esquerda, à direita uma porta que dá acesso a arrumos e na frente duas portas para salas, parede que continua num estreito corredor que termina em mais uma dessas portas. No hall, apesar de vazio (não me lembro de alguma vez existirem objectos, a não ser uma fileira de ganchos entre a porta da casa de banho dos meninos e a porta da primeira sala, onde as crianças colocavam os seus casacos e mochilas), surgem, produto da minha imaginação, paredes holográficas que definem um corredor diagonal entre o fim das escadas e o pequeno corredor real, cortado apenas por um caminho para a porta dos arrumos e outro para as casas de banho. Como se esse corredor imaginário fosse a única via de circulação pelo hall, todo o resto do espaço de uso impossibilitado. De facto, não me lembro nunca de ter tocado nas paredes fora deste caminho mental. Por outro lado, não sei se alguma vez me lembraria de tão banal situação. O que me ficou na cabeça foi o espaço, que nas minhas visões permanece sempre deserto de pessoas, e não sei dizer com precisão se chego alguma vez a percorrê-lo ou se fico prostrado no fim das escadas, a olhar. Ou, até, se estou a ver tudo isto com uma forma corporal ou se apenas levito, etéreo, um único átomo num ponto de vista.
Não sei porque é que a minha cabeça forma estes caminhos, como se procurasse estabelecer uma ordem no caos do espaço, como se ar fosse demasiado livre e fosse então necessário criar roteiros, aprisionar moléculas, obrigar o vazio a tornar-se forma. Talvez seja por isso que o meu corpo se inquieta com a desarrumação que impera na minha casa. Não são apenas as caixas espalhadas e as coisas por organizar, são os caminhos que ainda não existem, as gavetas e os armários que ainda não adivinho o que contêm, os passos antecipados dados no escuro que ainda não consigo dar. Habitar uma casa, ou ser habitado por ela, implica tempo e habituação, implica impregná-la com o nosso cheiro, marcá-la com o nosso toque, transferir-lhe as memórias. Assemelha-se a um romance, a alguém que amamos, que também habitamos e por quem somos habitados. As nossas pessoas são também as nossas casas e as nossas casas são (ou podem ser) uma ampliação das pessoas que somos.
Mudar de casa é assim terminar um namoro e começar outro, sem qualquer pausa ou período de nojo, sem espaço de recuperação. Somos atirados para o início de uma nova relação, ainda a outra não está curada. E nesses dias, atravessa-se a melancolia do abandono do conhecido: do som da porta da entrada a fechar, da reverberação da voz no corredor, da luz enevoada a entrar pelas pequenas janelas da sala, das manchas de humidade no canto da casa de banho. Não é preciso amar uma casa para sentir a melancolia depois de a deixar. Não é preciso gostar particularmente dela, embora ajude. Mesmo num sítio onde não se é feliz se criam memórias, hábitos, inconsciências. Não amei a casa de onde saí, mas tive momentos felizes. Habituei-me às suas particularidades e soube narrar uma história à sua volta. Habitei a casa e fiz dela minha, ou parte dela minha, a que me permiti, a que a casa me permitiu. Deixei-a para trás, porque a história anda para a frente e é assim que as coisas são.
Aguardo agora que o tempo se encarregue do seu trabalho: de tornar os armários, as portas, as janelas, o chão, toda a casa parte de mim, adivinhada pela ponta dos meus dedos, passível de ser tratada por tu. Acho que os meus gatos já levam algum de avanço.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: cyan — loscil & lawrence english
Alarido: da casa

s/título (2021) — Miguel De
Mudei de casa. Aconteceu por força das circunstâncias, não porque tenha tomado a decisão consciente de fazê-lo. Os contratos renovam-se ou terminam e, no meu caso, ficou por renovar. Aconteceu no último mês do ano passado, como que me preparando para um ano de inquietude. Serviu talvez como o empurrão que precisava para resolver o impasse de uma casa onde vivia mas que não me representava e, principalmente, que começava a dar sinais da necessidade de uma manutenção algo complicada.
Teve de ser. E nas decisões a tomar, deixei de suportar um senhorio para ficar refém de um banco. O processo é previsivelmente burocrático e extenuante, e muito pouco interessante. Sabia que queria escrever uma destas cartas sobre esta mudança, mas queria aguardar até me instalar na casa nova, porque adivinhava o que se avizinhava.
Há uma relação emocional que se cria com as paredes e o tecto onde se habita e sabia que este abanar das esferas de equilíbrio do meu corpo ia causar-me ansiedade. É natural, é uma mudança e somos-lhes resistentes. Preferimos o conhecido e o confortável, porque sabemos com o que contar. Principalmente no que toca ao nosso espaço seguro, a nossa casa, o local para onde nos refugiamos quando o mundo externo não encaixa.
Em todo este processo, durante as fatigantes mudanças e principalmente agora que as coisas acalmaram, pude reflectir sobre esta coisa da casa, do espaço, do hábito e do desarme dentro de portas.
Tenho tendência a mapear os espaços em que me habituo de uma forma ordenada por caminhos de circulação. Imagino paredes que delineiam os passeios por onde posso andar, cortados por saídas que se dirigem a portas de acesso a outras salas. Não te consigo definir os momentos em que essas imagens me aparecem na cabeça, mas, por vezes, lá surge um hall do infantário onde andei, visto de quem desce as escadas que fazem esquina e que revelam um espaço vazio com duas portas de WC na ponta da esquerda, à direita uma porta que dá acesso a arrumos e na frente duas portas para salas, parede que continua num estreito corredor que termina em mais uma dessas portas. No hall, apesar de vazio (não me lembro de alguma vez existirem objectos, a não ser uma fileira de ganchos entre a porta da casa de banho dos meninos e a porta da primeira sala, onde as crianças colocavam os seus casacos e mochilas), surgem, produto da minha imaginação, paredes holográficas que definem um corredor diagonal entre o fim das escadas e o pequeno corredor real, cortado apenas por um caminho para a porta dos arrumos e outro para as casas de banho. Como se esse corredor imaginário fosse a única via de circulação pelo hall, todo o resto do espaço de uso impossibilitado. De facto, não me lembro nunca de ter tocado nas paredes fora deste caminho mental. Por outro lado, não sei se alguma vez me lembraria de tão banal situação. O que me ficou na cabeça foi o espaço, que nas minhas visões permanece sempre deserto de pessoas, e não sei dizer com precisão se chego alguma vez a percorrê-lo ou se fico prostrado no fim das escadas, a olhar. Ou, até, se estou a ver tudo isto com uma forma corporal ou se apenas levito, etéreo, um único átomo num ponto de vista.
Não sei porque é que a minha cabeça forma estes caminhos, como se procurasse estabelecer uma ordem no caos do espaço, como se ar fosse demasiado livre e fosse então necessário criar roteiros, aprisionar moléculas, obrigar o vazio a tornar-se forma. Talvez seja por isso que o meu corpo se inquieta com a desarrumação que impera na minha casa. Não são apenas as caixas espalhadas e as coisas por organizar, são os caminhos que ainda não existem, as gavetas e os armários que ainda não adivinho o que contêm, os passos antecipados dados no escuro que ainda não consigo dar. Habitar uma casa, ou ser habitado por ela, implica tempo e habituação, implica impregná-la com o nosso cheiro, marcá-la com o nosso toque, transferir-lhe as memórias. Assemelha-se a um romance, a alguém que amamos, que também habitamos e por quem somos habitados. As nossas pessoas são também as nossas casas e as nossas casas são (ou podem ser) uma ampliação das pessoas que somos.
Mudar de casa é assim terminar um namoro e começar outro, sem qualquer pausa ou período de nojo, sem espaço de recuperação. Somos atirados para o início de uma nova relação, ainda a outra não está curada. E nesses dias, atravessa-se a melancolia do abandono do conhecido: do som da porta da entrada a fechar, da reverberação da voz no corredor, da luz enevoada a entrar pelas pequenas janelas da sala, das manchas de humidade no canto da casa de banho. Não é preciso amar uma casa para sentir a melancolia depois de a deixar. Não é preciso gostar particularmente dela, embora ajude. Mesmo num sítio onde não se é feliz se criam memórias, hábitos, inconsciências. Não amei a casa de onde saí, mas tive momentos felizes. Habituei-me às suas particularidades e soube narrar uma história à sua volta. Habitei a casa e fiz dela minha, ou parte dela minha, a que me permiti, a que a casa me permitiu. Deixei-a para trás, porque a história anda para a frente e é assim que as coisas são.
Aguardo agora que o tempo se encarregue do seu trabalho: de tornar os armários, as portas, as janelas, o chão, toda a casa parte de mim, adivinhada pela ponta dos meus dedos, passível de ser tratada por tu. Acho que os meus gatos já levam algum de avanço.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: cyan — loscil & lawrence english