Um dia, a voltar para casa, deparei-me com um pedaço de negativo atirado ao chão, em frente à porta do meu prédio. Uma relíquia de outros tempos, sem qualquer pista de como terá ido parar ali. Decidi pegar nele e guardá-lo. Eram três fotografias, talvez dos anos 80 ou inícios dos 90. Uma delas chamou-me a atenção pela sua peculiaridade.
A minha incapacidade em conseguir explicar o que estava a acontecer era o que me fascinava mais. Por não ser identificável, torna-se um perfeito repositório para qualquer história que eu quisesse contar que envolvesse um homem olhar para os olhos de uma mulher através de um objecto. Uma metáfora poética para o carácter mecânico da fotografia: aqui não há filme, o olho olha o olho: os olhos são ao mesmo tempo objecto que fotografa e objecto fotografado, continuando a existir a objectiva, “o olho fotográfico que substitui o olho humano,” como escreveu Bazin. Portanto, o olho olha o olho através do olho. Qual seria o objectivo deste acto? Porquê analisar um olho? Propus uma explicação, assente numa ideia antiga: para ver a alma.
Se o olho é o espelho da alma, então poderíamos pensar na fotografia como espelho da morte, o momento capturado que não existe mais e, portanto, morto, como Barthes dizia. Se a morte produz fantasmas, então também a fotografia; no acto fotográfico, recria-se a realidade e com ela, almas ou fantasmas novos. Os aborígenes acreditavam que tirar a fotografia de alguém lhes roubava a alma: como se o dispositivo mecânico fosse capaz de extrair a essência verdadeira da pessoa e fixá-la numa chapa, deixando o corpo vivo vazio. Como na fotografia do Jardim de Inverno de Barthes, a alma, a essência, o fantasma da sua mãe fixado que acendia no escritor o seu reconhecimento pleno, era a sua “imagem justa,” também esta fotografia despertava em mim um fascínio que ia para além da representação. Como se o acto fosse do âmbito do oculto, um ritual qualquer, o negativo meio degradado reforçando essa estranheza. Estes dois corpos numa pose fantasmagórica, como que procurando a essência da verdade no terreno: a minha percepção, a minha fantasia deliberada do meu entendimento da imagem tornou-se então, naquela altura, ponto de partida para um projecto que nunca se materializou.
Decidi assim adquirir arquivos fotográficos de pessoas aleatórias, corpos desconhecidos com vidas desconhecidas, documentadas em fotografias por vezes legendadas, mas na sua maioria, desprovidas de contexto ou ligação. Uma caixa com mais de mil fotografias provenientes de arquivos diversos, de décadas diversas, capturadas por pessoas diferentes com máquinas diferentes. Não haveria um aspecto ou narrativa que as unisse, eram, tal como a fotografia que encontrei, receptáculos abertos a interpretação, a histórias. Fantasmas ou fantasias, como Freud e Lacan escrevem, obstáculos da verdade, ou a verdade em si mesma, mas embelezada.
Se as fotografias são a verdade, porque a existência delas assim o comprova, são ainda assim objectos abertos, passíveis de ser datados se apresentarem a representação de um tempo específico, ou de terem os seus contextos de criação assumidos. As fotografias de arquivo familiar, como a que encontrei no chão, terão memórias a si associadas enquanto existirem quem as leia sabendo dessas memórias. Não estão encerradas no objecto fotográfico mas no ser humano que as vê. À medida que o tempo vai passando e essas memórias vão desaparecendo, estas fotografias alteram o seu sentido. De auxiliares da memória passam a documento: de um tempo, de um local. A sua leitura não é associada ao contexto da sua criação mas à interpretação do fotografado. Eu não conheço as pessoas que aparecem nas fotografias, não era sequer vivo na maioria delas: assim, não tenho memórias associadas a elas, interpreto-as na comparação entre aquelas que me parecem pertencer a um mesmo grupo.
O arquivo familiar, aqui multiplicado em vários, encerra em si uma estrutura própria. O álbum de família é uma história que se conta, é uma ficção narrativa baseada na não-linearidade da realidade, particularmente tendenciosa, recusando essa multiplicidade, e contendo em si apenas os momentos felizes da família, as festas, as viagens, o crescimento dos filhos. O álbum de família é a história das nossas vidas, se antes em livro, agora nas redes, uma curadoria cuidada de performance da vida perfeita, alegre, positiva, feliz. Posso perguntar-me se as fotografias que tenho na minha posse são as rejeitadas de um possível álbum físico das famílias a quem pertencem ou esse álbum não existe? Vejo nelas as viagens, os jantares, os casamentos, os eventos, mas também o quotidiano, a mulher que se vira para a câmara porque não sabia que estava a ser fotografada, ou o leitão que repousa em cima da mesa antes de ser assado.
A construção do álbum fotográfico é puro teatro, produz-se atrás da câmara e à sua frente, feito por quem fotografa e por quem é fotografado, antes e depois de se fotografar. Posamos para a fotografia, escolhemos o nosso melhor ângulo, escolhemos o fundo, o que queremos mostrar, o melhor enquadramento. Escolhemos tirar a fotografia porque queremos contar alguma coisa, ou porque estive aqui, ou porque é suposto fotografar estes momentos, por uma qualquer razão.
As memórias associadas, ou a história da existência da fotografia, são o que a justifica. O álbum representa a oportunidade de controlar e estruturar o significado das fotografias e da sua leitura, de (re)organizar a nossa vida, o nosso passado. Perante o álbum de família, interpretamos o passado, lemos a nossa vida ou a vida dos outros a partir não só das fotografias como da ordem pela qual elas são apresentadas e agrupadas. Geralmente as legendas apenas identificam o momento em que foram capturadas, não dão muito detalhe para além disso, ao ponto que posso olhar para uma fotografia minha enquanto criança e não perceber porque estão dois balões lá. Não tenho memória deste dia e, embora reconheça tudo o que a fotografia contém, não sei o que aconteceu antes dela ser tirada.
As fotos de família são sem sombra de dúvidas o tipo de fotografia que mais fazemos. Muito embora já não construamos álbuns como se fazia antes do advento do digital, continuamos a produzi-las. São fotografias bastante sofisticadas, porque encerram em si várias decisões que evidenciam as complexas relações de poder no seio familiar: quem fotografa, quem aparece ou não aparece, como é feita a fotografia. Por exemplo, a minha mãe não é figura recorrente nos álbuns da minha família, porque era ela quem mais queria imortalizar as memórias, construir os álbuns. A história da minha vida até ao início do milénio é, por isso, inteiramente uma fabricação da minha mãe. Na introdução ao livro por si editado, intitulado precisamente “Álbum de Família,” Pedro Vicente diz que “as fotografias que contam histórias e constroem memórias são uma parte muito importante das raízes e da existência de cada um de nós, da nossa história e, portanto, da nossa sociedade.” Sabemos como construir os álbuns de família e assim sabemos as suas regras subjacentes: estamos conscientes de que não contam a história toda, de que são uma escolha precisa e cuidada, e, ainda assim, continuamos com a necessidade dessa performance numa tentativa de convencer os outros de que a nossa vida é assim.
Nas fotografias de família, o importante é captar o momento, o evento, as pessoas. A força estética da fotografia é diminuta e poucas vezes pensada muito para além dos objectos a fotografar caberem no enquadramento. O grande objectivo é construir a história da família, acompanhar os momentos mais importantes que marcam a fuga ao quotidiano. No caso da minha família, os álbuns param assim que o meu pai compra uma máquina fotográfica digital. Coincide com a minha entrada na adolescência e a minha teimosia em recusar-me ser fotografado. Tirando a ocasional fotografia de passe ou evento importante onde terei sido “apanhado” contra a minha vontade, não tenho fotografias de quase uma década da minha vida. No hipotético álbum fotográfico da minha existência, há uma década que não existe em documento, apenas na minha memória e na das pessoas que me rodearam nessa altura. Quando eu e elas nos extinguirmos, ou as nossas memórias desaparecerem (o que acontecer primeiro), essa década apaga-se.
Sem memória, não há documento. Sem documento, não há história. Como uma estrela que se apaga a vários anos-luz, continuamos a ver o seu brilho durante algum tempo, mas inevitavelmente desaparece. E com tantas outras luzes por esse céu imenso, facilmente esquecemo-nos de que alguma vez essa estrela existiu. Por isso, fotografa-te. A ti e à tua vida. Documenta tudo, guarda as memórias todas. Um dia, quando a tua memória te falhar ou o teu corpo te atraiçoar, a tua história perdurará.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: house on the river — abul mogard
Alarido: do álbum de família

autor desconhecido
Um dia, a voltar para casa, deparei-me com um pedaço de negativo atirado ao chão, em frente à porta do meu prédio. Uma relíquia de outros tempos, sem qualquer pista de como terá ido parar ali. Decidi pegar nele e guardá-lo. Eram três fotografias, talvez dos anos 80 ou inícios dos 90. Uma delas chamou-me a atenção pela sua peculiaridade.
A minha incapacidade em conseguir explicar o que estava a acontecer era o que me fascinava mais. Por não ser identificável, torna-se um perfeito repositório para qualquer história que eu quisesse contar que envolvesse um homem olhar para os olhos de uma mulher através de um objecto. Uma metáfora poética para o carácter mecânico da fotografia: aqui não há filme, o olho olha o olho: os olhos são ao mesmo tempo objecto que fotografa e objecto fotografado, continuando a existir a objectiva, “o olho fotográfico que substitui o olho humano,” como escreveu Bazin. Portanto, o olho olha o olho através do olho. Qual seria o objectivo deste acto? Porquê analisar um olho? Propus uma explicação, assente numa ideia antiga: para ver a alma.
Se o olho é o espelho da alma, então poderíamos pensar na fotografia como espelho da morte, o momento capturado que não existe mais e, portanto, morto, como Barthes dizia. Se a morte produz fantasmas, então também a fotografia; no acto fotográfico, recria-se a realidade e com ela, almas ou fantasmas novos. Os aborígenes acreditavam que tirar a fotografia de alguém lhes roubava a alma: como se o dispositivo mecânico fosse capaz de extrair a essência verdadeira da pessoa e fixá-la numa chapa, deixando o corpo vivo vazio. Como na fotografia do Jardim de Inverno de Barthes, a alma, a essência, o fantasma da sua mãe fixado que acendia no escritor o seu reconhecimento pleno, era a sua “imagem justa,” também esta fotografia despertava em mim um fascínio que ia para além da representação. Como se o acto fosse do âmbito do oculto, um ritual qualquer, o negativo meio degradado reforçando essa estranheza. Estes dois corpos numa pose fantasmagórica, como que procurando a essência da verdade no terreno: a minha percepção, a minha fantasia deliberada do meu entendimento da imagem tornou-se então, naquela altura, ponto de partida para um projecto que nunca se materializou.
Decidi assim adquirir arquivos fotográficos de pessoas aleatórias, corpos desconhecidos com vidas desconhecidas, documentadas em fotografias por vezes legendadas, mas na sua maioria, desprovidas de contexto ou ligação. Uma caixa com mais de mil fotografias provenientes de arquivos diversos, de décadas diversas, capturadas por pessoas diferentes com máquinas diferentes. Não haveria um aspecto ou narrativa que as unisse, eram, tal como a fotografia que encontrei, receptáculos abertos a interpretação, a histórias. Fantasmas ou fantasias, como Freud e Lacan escrevem, obstáculos da verdade, ou a verdade em si mesma, mas embelezada.
Se as fotografias são a verdade, porque a existência delas assim o comprova, são ainda assim objectos abertos, passíveis de ser datados se apresentarem a representação de um tempo específico, ou de terem os seus contextos de criação assumidos. As fotografias de arquivo familiar, como a que encontrei no chão, terão memórias a si associadas enquanto existirem quem as leia sabendo dessas memórias. Não estão encerradas no objecto fotográfico mas no ser humano que as vê. À medida que o tempo vai passando e essas memórias vão desaparecendo, estas fotografias alteram o seu sentido. De auxiliares da memória passam a documento: de um tempo, de um local. A sua leitura não é associada ao contexto da sua criação mas à interpretação do fotografado. Eu não conheço as pessoas que aparecem nas fotografias, não era sequer vivo na maioria delas: assim, não tenho memórias associadas a elas, interpreto-as na comparação entre aquelas que me parecem pertencer a um mesmo grupo.
O arquivo familiar, aqui multiplicado em vários, encerra em si uma estrutura própria. O álbum de família é uma história que se conta, é uma ficção narrativa baseada na não-linearidade da realidade, particularmente tendenciosa, recusando essa multiplicidade, e contendo em si apenas os momentos felizes da família, as festas, as viagens, o crescimento dos filhos. O álbum de família é a história das nossas vidas, se antes em livro, agora nas redes, uma curadoria cuidada de performance da vida perfeita, alegre, positiva, feliz. Posso perguntar-me se as fotografias que tenho na minha posse são as rejeitadas de um possível álbum físico das famílias a quem pertencem ou esse álbum não existe? Vejo nelas as viagens, os jantares, os casamentos, os eventos, mas também o quotidiano, a mulher que se vira para a câmara porque não sabia que estava a ser fotografada, ou o leitão que repousa em cima da mesa antes de ser assado.
A construção do álbum fotográfico é puro teatro, produz-se atrás da câmara e à sua frente, feito por quem fotografa e por quem é fotografado, antes e depois de se fotografar. Posamos para a fotografia, escolhemos o nosso melhor ângulo, escolhemos o fundo, o que queremos mostrar, o melhor enquadramento. Escolhemos tirar a fotografia porque queremos contar alguma coisa, ou porque estive aqui, ou porque é suposto fotografar estes momentos, por uma qualquer razão.
As memórias associadas, ou a história da existência da fotografia, são o que a justifica. O álbum representa a oportunidade de controlar e estruturar o significado das fotografias e da sua leitura, de (re)organizar a nossa vida, o nosso passado. Perante o álbum de família, interpretamos o passado, lemos a nossa vida ou a vida dos outros a partir não só das fotografias como da ordem pela qual elas são apresentadas e agrupadas. Geralmente as legendas apenas identificam o momento em que foram capturadas, não dão muito detalhe para além disso, ao ponto que posso olhar para uma fotografia minha enquanto criança e não perceber porque estão dois balões lá. Não tenho memória deste dia e, embora reconheça tudo o que a fotografia contém, não sei o que aconteceu antes dela ser tirada.
As fotos de família são sem sombra de dúvidas o tipo de fotografia que mais fazemos. Muito embora já não construamos álbuns como se fazia antes do advento do digital, continuamos a produzi-las. São fotografias bastante sofisticadas, porque encerram em si várias decisões que evidenciam as complexas relações de poder no seio familiar: quem fotografa, quem aparece ou não aparece, como é feita a fotografia. Por exemplo, a minha mãe não é figura recorrente nos álbuns da minha família, porque era ela quem mais queria imortalizar as memórias, construir os álbuns. A história da minha vida até ao início do milénio é, por isso, inteiramente uma fabricação da minha mãe. Na introdução ao livro por si editado, intitulado precisamente “Álbum de Família,” Pedro Vicente diz que “as fotografias que contam histórias e constroem memórias são uma parte muito importante das raízes e da existência de cada um de nós, da nossa história e, portanto, da nossa sociedade.” Sabemos como construir os álbuns de família e assim sabemos as suas regras subjacentes: estamos conscientes de que não contam a história toda, de que são uma escolha precisa e cuidada, e, ainda assim, continuamos com a necessidade dessa performance numa tentativa de convencer os outros de que a nossa vida é assim.
Nas fotografias de família, o importante é captar o momento, o evento, as pessoas. A força estética da fotografia é diminuta e poucas vezes pensada muito para além dos objectos a fotografar caberem no enquadramento. O grande objectivo é construir a história da família, acompanhar os momentos mais importantes que marcam a fuga ao quotidiano. No caso da minha família, os álbuns param assim que o meu pai compra uma máquina fotográfica digital. Coincide com a minha entrada na adolescência e a minha teimosia em recusar-me ser fotografado. Tirando a ocasional fotografia de passe ou evento importante onde terei sido “apanhado” contra a minha vontade, não tenho fotografias de quase uma década da minha vida. No hipotético álbum fotográfico da minha existência, há uma década que não existe em documento, apenas na minha memória e na das pessoas que me rodearam nessa altura. Quando eu e elas nos extinguirmos, ou as nossas memórias desaparecerem (o que acontecer primeiro), essa década apaga-se.
Sem memória, não há documento. Sem documento, não há história. Como uma estrela que se apaga a vários anos-luz, continuamos a ver o seu brilho durante algum tempo, mas inevitavelmente desaparece. E com tantas outras luzes por esse céu imenso, facilmente esquecemo-nos de que alguma vez essa estrela existiu. Por isso, fotografa-te. A ti e à tua vida. Documenta tudo, guarda as memórias todas. Um dia, quando a tua memória te falhar ou o teu corpo te atraiçoar, a tua história perdurará.
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: house on the river — abul mogard