Este sábado o Paulo e o Ricardo perguntaram-se se escrever estas cartas me estavam a fazer bem. A resposta curta que dei foi que sim, que ajudavam a descarregar algumas das coisas que me vão pela cabeça.
A resposta longa, que não disse, é que não sei.
(imaginei terminar esta carta aqui, para que o longo fosse mais curto que o curto e dissesse mais na ausência de palavras do que as palavras que daqui para a frente vou deixar)
Não sei se escrever isto me faz bem. Não sei se faz alguma coisa. Há uma obrigação, uma espécie de promessa que fiz a mim mesmo, de escrever uma destas cartas semanalmente. No início, fui claro que não iria haver nenhuma periodicidade definida, mas no fim de contas, estabeleci uma, ainda que só na minha cabeça.
Escrever é um acto de hipnose. Tem um ritual associado, de preparação. Sinto que não existe relação entre o estado mental de escrever com a rotina do quotidiano. Como se fossem duas partes separadas do eu, do mundo onde habita. Na escrita, acedo a um espaço interior que o ruído do dia impede de se manifestar. Pela escrita, desenvolvo o pensamento irreal, faço das minhas palavras o eco do que fica por dizer. Escrever é um acto de hipnose, porque sai de um estado de desconexão com o tempo linear e acontece num espaço desfasado da superfície. Escrever faz-se numa súbita mas imperceptível levitação, demora a chegar e dura apenas segundos, nos quais os sentidos não existem, porque todo o sangue se desviou para os dedos. O olhar perde o foco e o fluxo do pensamento é orientado para cada letra minuciosamente atirada. Na escrita, ou na minha escrita, o sentido revela-se a cada palavra, não há uma particular orientação definida à partida.
Se estas cartas me estão a fazer bem? Não sei responder a essa questão substantivamente. Primeiro porque me parece que me tenho afundado a cada semana que passa; depois porque o alarido começa a afrouxar. O esforço é o obrigatório que me mantém, o que dizer escasseia. O Nuno Júdice, que nos deixou, disse em versos que o poema fica feito quando o poeta escreve o que vê. Para escrever é preciso ver. O que escrever então quando não se vê nada?
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: abandon window — jon hopkins
Alarido: da escrita

s/título (2022) — Miguel De
Este sábado o Paulo e o Ricardo perguntaram-se se escrever estas cartas me estavam a fazer bem. A resposta curta que dei foi que sim, que ajudavam a descarregar algumas das coisas que me vão pela cabeça.
A resposta longa, que não disse, é que não sei.
(imaginei terminar esta carta aqui, para que o longo fosse mais curto que o curto e dissesse mais na ausência de palavras do que as palavras que daqui para a frente vou deixar)
Não sei se escrever isto me faz bem. Não sei se faz alguma coisa. Há uma obrigação, uma espécie de promessa que fiz a mim mesmo, de escrever uma destas cartas semanalmente. No início, fui claro que não iria haver nenhuma periodicidade definida, mas no fim de contas, estabeleci uma, ainda que só na minha cabeça.
Escrever é um acto de hipnose. Tem um ritual associado, de preparação. Sinto que não existe relação entre o estado mental de escrever com a rotina do quotidiano. Como se fossem duas partes separadas do eu, do mundo onde habita. Na escrita, acedo a um espaço interior que o ruído do dia impede de se manifestar. Pela escrita, desenvolvo o pensamento irreal, faço das minhas palavras o eco do que fica por dizer. Escrever é um acto de hipnose, porque sai de um estado de desconexão com o tempo linear e acontece num espaço desfasado da superfície. Escrever faz-se numa súbita mas imperceptível levitação, demora a chegar e dura apenas segundos, nos quais os sentidos não existem, porque todo o sangue se desviou para os dedos. O olhar perde o foco e o fluxo do pensamento é orientado para cada letra minuciosamente atirada. Na escrita, ou na minha escrita, o sentido revela-se a cada palavra, não há uma particular orientação definida à partida.
Se estas cartas me estão a fazer bem? Não sei responder a essa questão substantivamente. Primeiro porque me parece que me tenho afundado a cada semana que passa; depois porque o alarido começa a afrouxar. O esforço é o obrigatório que me mantém, o que dizer escasseia. O Nuno Júdice, que nos deixou, disse em versos que o poema fica feito quando o poeta escreve o que vê. Para escrever é preciso ver. O que escrever então quando não se vê nada?
Um abraço.
Miguel
música da leitura desta carta: abandon window — jon hopkins